Ecossistema – Da natureza às organizações humanas

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Ecossistema – Da natureza às organizações humanas

Na natureza, ecossistema pode ser definido como um espaço onde vivem de forma particular organismos vivos, interagindo entre si e estabelecendo relações com o meio ambiente externo por meio de processos físicos e químicos. Neste sentido, existem diferentes ecossistemas na natureza, como uma floresta, o fundo do mar, o serrado, o pantanal, entre outros. O que todos tem em comum é que possuem um padrão de organização semelhantes. Todos precisam de uma fonte de energia e um grupo de organismos que podem absorver essa energia e armazená-la numa forma química. A teia da vida é a soma total de todos os ecossistemas.

Cada ecossistema é formado por várias populações de espécies diferentes, constituindo, assim, uma comunidade. Esta diversidade é caracterizada pelas diferentes competências, necessidades e funções exercidas pelos seus componentes. Os ecossistemas naturais possuem três categorias: produtores, consumidores e decompositores. A relação estabelecida por estas categorias é denominada “cadeia alimentar”, que se configura no fluxo de troca de matéria e energia por meio da nutrição.

Os produtores tem a função de captação de energia, atuando como fornecedor de alimento para os membros da comunidade. Os consumidores vivem da energia e do alimento fornecido pelos produtores. O grupo de consumidores dividem-se em 3, conforme figura abaixo:

Fig 1: modelo de cadeia alimentar

E, por último, temos os decompositores, que são os fungos e bactérias, que vivem no solo e na água, tendo como função reciclar a matéria orgânica, originária de degetos e cadáveres.

A descrição acima, permite uma conclusão essencial, a vida contínua em um ecossistema não é propriedade de um único organismo ou espécie, mas sim de um sistema ecológico. Segundo Capra:

“Os animais dependem da fotossíntese das plantas para ter atendidas as suas necessidades energéticas; as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes; e todos juntos, vegetais animais e microorganismos, regulam toda a biosfera e mantêm as condições propícias à preservação da vida” (Capra, Fritjof, 2002, p. 23)

A partir desta conclusão, pode-se dar início à correlação do funcionamento de um ecossistema natural e um ecossistema humano, ou seja,  o espaço constituído pelas organizações criadas pelo homem.

O que caracteriza o ser vivo?

Como dito, um ecossistema é composto de organismos vivos, assim é necessária a compreensão do que determina a vida num organismo, isto é, o que é a vida? A resposta a esta questão ajuda no entendimento da evolução da realidade social, a partir do mundo biológico, bem como, as condições necessárias a manutenção da vida em um sistema, natural ou artificial, criado pelo ser humano.

Nas palavras de Capra (2002), a condição primeira de vida biológica em qualquer organismo – animais, plantas, seres humanos, microorganismos – é a existência de uma estrutura, constituída de células, unidade básica da vida. Todos os organismos vivos são constituídos de uma única ou várias células,  donde se entende ser este organismo o sistema vivo mais simples. Ou seja, ela traz em si a estrutura do funcionamento de um sistema como um todo, sem que isto represente o todo do sistema que se quer conhecer. Tal afirmação dá ênfase à máxima: o todo é mais do que a soma das partes.

Portanto, ressalvando-se a ênfase anteriormente citada, a compreensão do funcionamento de um ecossistema passa pelo entendimento de sua estrutura mínima, a célula. Para o nosso propósito, a saber, utilizar o funcionamento biológico de um oragnismo vivo como metáfora para o funcionamento das organizações sociais criadas pelo ser humano, cabe destacar duas condições essenciais de uma célula:

  • A existência de uma membrana, que tem como função estabelecer um limite entre o organismo e o ambiente externo, atuando como um filtro, flexível e ativo, abrindo-se e fechando-se, ora permitindo, ora negando a entrada de substâncias no seu interior;
  • A natureza do metabolismo interno da célula, onde está constituída uma rede de moléculas, que ativam um conjunto de reações químicas assimiladoras de nutrientes do ambiente externo, produzindo e sustentando seus componentes, configurando desta forma seus próprios limites. A este processo Maturana e Varela (2011) denominaram “autopoiese”, ou, autocriação.

 São estas condições, a existência de filtros e a capacidade de auto-organização, os fatores que melhor justificam considerar as organizações sociais humanas como sistemas vivos, bem como, os  grupos de organizações humanas, Ecossistemas.

 Ecossistema Organizacional

             O primeiro fator, a existência de filtros, traz em si uma contradição, ao mesmo tempo em que a organização se fecha ao ambiente externo, também deve abrir-se, pois só assim pode apreender e evoluir. Quando a organização realiza a abertura ao ambiente externo o faz na busca de novos conceitos, novas tecnologias e novos conhecimentos, com isto demonstra sua flexibilidade e capacidade de aprendizado. Ao internalizar estes elementos, passam a atuar fatores que tem como função dar significado e valor interno a estes elementos, tais fatores estão associados, primordialmente, à cultura da organização.

No processo de internalização ocorre o segundo fator de manutenção da vida da organização, a assimilação dos fatores externos, que se dá pela sua auto-organização (autopoiese), ou, a re-configuração de sua estrutura, com vistas a mudança cultural e a inovação de suas entregas ao ambiente externo.

A inserção de uma organização em um ecossistema tem um caráter estratégico, pois num contexto em contínua mutação, onde decisões e estratégias devem ser implementadas num cenário de profunda incerteza, ser participante ativo de um ecossistema representa a possibilidade de compartilhar competências, recursos-chave, investimentos e criação de valor para a sociedade. Assim, pode-se definir ecossistema como:

“Uma comunidade sócio-econômica apoiada por uma base de organizações e indivíduos, que interagem para produzir bens e serviços de valor para os clientes/usuários. Ao longo do tempo, elas co-evoluem suas capacidades e papéis, e tendem a alinhar-se com as direções definidas por uma ou mais empresas centrais. Num ecossistema os membros se movem por meio de visões compartilhadas, para alinhar seus investimentos e encontrar papéis de apoio mútuo.” (Adaptado de Moore, J, 1996)

Esta comunidade de organizações pode ser configurada de forma orgânica, espontânea e/ou planejada, buscando equilibrar interesses individuais e coletivos. Um ecossistema pode ser visto como uma plataforma, onde são ativadas conexões, com diferentes níveis de intensidade e objetivos. A figura a seguir representa, de forma genérica, um possível modelo de  Ecossistema:

 

Fig 2: Modelo de Ecossistema

Fonte: o autor, adaptado de Verganti, 2009

            Observando a figura acima, localiza-se os diferentes tipos de interação que uma organização pode realizar. A natureza e significado  destas conexões relacionam-se diretamente com sua intenção estratégica e objetivos, que representam as fontes para mapear e identificar os potenciais elementos de interesse e valor mútuos destes relacionamentos.

Ecossistema como plataforma de inovação social, cultural, ambiental e econômica

A constituição de um ecossistema tem entre suas finalidades essenciais a criação de um contexto dinâmico, caracterizado pelo fluxo contínuo de informações, recursos e conhecimentos potencializadores de inovação. Segundo Verganti (2009) as organizações e indivíduos  que atuam neste contexto, denominados atores pelo autor, realizam o papel de intérpretes dos cenários sócio-cultural e tecnológicos, localizando nas diversas realidades focadas sinais de futuros possíveis. No papel de intérpretes cabe aos atores buscar compreender e dar significado aos diversos aspectos visualizados, ou seja, transformar estes aspectos em insumos para o design de projetos inovadores.

Um ecossistema pode ser visto como um espaço catalizador do  processo de aprendizado coletivo, onde cada participante, a partir das conexões estabelecidas, internaliza novos conhecimentos, o que lhes dá capacidade de reconfigurar-se estruturalmente, de forma a adaptar-se às mudanças quando necessário, bem como, influenciar de forma diferenciada o ambiente externo.

Nesta constelação de pessoas e organizações ocorre o que pode-se denominar uma co-criação de valor social, econômico e ambiental para a sociedade e indivíduos. Pois, dois aspectos são particularmente potencializados neste ambiente, a criatividade e a geração de conhecimento, ambos elementos facilitadores de inovação.

O pertencimento ativo a um ecossistema implica no entendimento amplo do valor gerado para a organização e seus usuários. Este valor pode estar associado a diferentes aspectos, como por exemplo:

  • competências complementares;
  • tecnologias apoiadoras;
  • recursos acessórios;
  • potencializadores de inserção em nichos específicos;
  • compartilhamento de custos e infra-estrutura.

Diante disto, cabe às organizações mapear os potenciais parceiros estratégicos com quem quer contar em seu ecossistema, levando em conta um ou mais dos fatores acima descritos. Esta decisão não implica em dar o mesmo grau de relevância às relações que serão estabelecidas, certamente, algumas são de caráter mais intenso do que outras. A medição da intensidade e valor das conexões estabelecidas pode ser realizada pelo seu impacto na geração de serviços e produtos diferenciados para os clientes e usuários de cada organização componente do ecossistema.

 Conclusão

            Ao refletir sobre as possibilidades e oportunidades geradas pela inserção das organizações em um ecossistema, percebe-se que, a semelhança dos organismos vivos da natureza, esta é uma condição essencial a sua sobrevivência e evolução. Os propósitos estratégicos de uma organização só podem ser alcançados mediante sua abertura, pois é este movimento que possibilita o diálogo ampliado com a diversidade de significados relevantes do ambiente externo, isto pode ser representado pela figura abaixo:

  

 Figura 3: Inovação orientada pelo Design

Fonte: autor, adaptado de Verganti, 2009

 

           Esta configuração de atores representa a síntese do espaço criativo gerado em um ecossistema, demonstrando que, como resultado desta triangulação, tem-se a compreensão de significados, elementos ativadores e construtores de novos conhecimentos e estratégias.

Um destaque que pode ser feito é que a participação de uma organização em um ecossistema não se realiza de forma passiva, mas sim, de forma ativa. Assim, ao mesmo tempo em que a organização internaliza informações de fora, podendo como isto reconfigurar-se estruturalmente, a organização também adquire capacidade de influenciar o ambiente externo, impactando com novos significados o contexto cultural, econômico e ambiental, com isto, com assegura Verganti (2009), promove o bem coletivo.

 Referênciais

 CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas – Ciência para uma vida sustentável, São Paulo, Ed. Cultrix, 2002

DEL GAUDIO, Chiara & FRANZATO, Carlo & FREIRE, Karine. Design-driven Strategies for creative social innovation Ecosystems. • Ijkem, Int. J. Knowl. Eng. Manage., v.6, n.16 • Florianópolis, SC

MATURANA, Humberto & Varela, Francisco J. A árvore do conhecimento – as bases biológicas da compreensão humana, São Paulo, Palas Athena Editora, 9ª Ed., 2011

MOORE, James F. The Death of Competition, Harper Business, 1996

VERGANTI, Roberto. Design-Driven Innovation. Boston, Harvard Business Press, 2009.

 

Autor: Francisco Ximenes, Voluntário PGQP.

 

2018-03-07T13:55:43+00:00 7 / mar / 2018|Destaque|